sexta-feira, setembro 07, 2007














Tenho uma amiga que é egoísta, umbiguista, egocêntrica, individualista e em vez de falar do que toda a gente fala hoje- a morte de Pavarotti, apetece-lhe mesmo é falar sobre esta noite, a dela, sozinha em casa, sem Joe Pesci como ameaça nem Macaulay Culkin como futuro agarrado-dependente. (e daí… ). Ninguém se esqueceu dela. Foi ela que quis esquecer o resto. De tudo o que não inclui o sofá desgastado cor-de-laranja, o laptop, os gatos, uma sangria de champanhe que vou-vos-contar, um pifo ou outro, os espargos verdes com salmão fumado e molho de maionese com cebolinho, os gatos, uma passagem por um livro de capa grossa, os gatos-sempre os gatos, uma televisão que não é egoísta e fala que se desunha sobre o tenor desaparecido, os pensamentos soltos e desajeitados, a vontade de muita coisa e inércia para muito mais, os planos para esta vida e a outra. O sushi que vai amar amanhã, a curiosidade, o mundo que talvez esteja demasiado preparado para ela. Apetece-se falar sobre as frases bonitas, bem arranjadas, que constrói na cabeça e um dia, se a memória não a trair como tem feito cada vez mais, as vai juntar todas, pôr-lhe uns anos de sabedoria em cima e vão virar um projecto. De quê? Não sabe. Sabe que tem que comprar mais livros e menos sapatos que esta vida são dois ou três dias, (não vamos falar do Carnaval de tanta azeiteirice que é) e o que calça não a leva longe, antes pelo contrario, rais parta aos saltos dos melhores sapatos, é que fico já aqui e não vou a lado nenhum.
Ai que tem que se ser tanta coisa e sendo-se tanta coisa, é-se afastado, temido, desconfiado, presumido, discriminado. Ser-se nada então é morte certa, nem vale a pena. Ser o quê então?

O bem parecido é fútil
O intelectual é chato
O popular-que-tem-amigos-em-todo-o-lado não é levado a sério ou, pior, é no fundo, cola.
O introspectivo é weirdo, sem amigos, patético, o bobo da corte.
O meigo é totó
O liberal é encornado
O possessivo é sufocante
O espertinho é irritante
O ambicioso é ganancioso
O que não é, não é grande coisa.
O deixa-andar é desleixado
O engraçado é ridículo
O que ri é histérico
O que não ri é maníaco-depressivo
O sarcástico é má pessoa
O criativo às vezes é excêntrico, outras apenas pensa que é criativo
O ingénuo é burro
O mentiroso é manipulador
O rei da festa é tonto
O que dá é mole
O que não dá é um egoísta de merda
O que guarda para si é somítico
O que partilha com o mundo é parvo
O que percebe de computadores é nerd
O que percebe de erguer e partir paredes é trolha e é de fugir.
O que não percebe de mulheres é homem
O que percebe de tudo e mais alguma coisa assim por alto é mulher.

Ser o quê então nos dias que passam?

Deus? Mas esse não existe.

“O único dever, ser moderno.” E assim foi ela. Deixou o homem à solta e ficou a ler, escrever e a apanhar pifos em casa. Feita independente. Feita Moderna. Sozinha em Casa.

3 comentários:

Ana Moreira disse...

Só de pensar que sou tua amiga sinto-me GRANDE!!! és linda in every way a person can be!
Da proxima vez chama.me que junto.me à festa... e nem precisamos de falar uma com a outra... right?!?!?

ana* disse...

ora então já somos três! lolol

OCTO disse...

eu tenho uma amiga que... está confusa com este post. Eu armado em pseudo-intelectual ainda tornei a coisa pior.

A partir de agora vou fazer desenhos...